quarta-feira, 15 de abril de 2009

Verdade e Consequência

Por onde quer que passe, Manuela Ferreira Leite vem declarando a sua oposição ao projecto de alta velocidade ferroviária, o TGV. Argumenta que, não havendo recursos no país, não deve haver luxos. Comete dois erros. Um de análise, pois o TGV não é um luxo, é um lixo. O segundo, de omissão, pois não chega falar, é preciso agir. Se fala verdade e é contra o projecto, a líder do PSD deve ser consequente, utilizando os meios ao seu alcance para evitar a construção do investimento menos rentável e mais inútil de sempre da história de Portugal. E o instrumento democrático mais convincente e acessível é o referendo popular.
Para o promover, a presidente do PSD dispõe de todas as condições. Tem legitimidade institucional, através da vontade expressa do seu grupo parlamentar. Além de que, no plano político, o PSD teria aqui uma janela de oportunidade única, a perspectiva de uma vitória retumbante. A fazer fé em todos os estudos de opinião, os portugueses estão hoje maioritariamente fartos de megaprojectos. Com esta iniciativa, o PSD surgiria assim como intérprete da vontade popular.

Finalmente, no plano dos princípios, um referendo sobre o TGV - mas também sobre todos os grandes investimentos públicos - é um imperativo democrático. Projectos com efeitos orçamentais em três gerações não devem ser decididos por políticos clarividentes (?!) ou sequer por técnicos consagrados. Decisões cujas consequências se farão sentir por tempos que muito excedem o duma legislatura devem assentar na vontade esclarecida de todo um povo. E não na de um governo a prazo, assessorado por técnicos tendenciosos e dependentes de corporações directamente envolvidas nos negócios a que as decisões dão suporte.

Ferreira Leite tem, pois, o dever moral de avançar com o referendo. A credibilidade, que tanto proclama, obriga a uma convergência da sua acção com o seu discurso político. Em nome dessa coerência, deve lutar pelo cancelamento do projecto. E mesmo se para tal tiver de contrariar alguns dos membros da sua Comissão Política, faces visíveis do bloco central de interesses, e cujos escritórios estão intimamente ligados aos grandes negócios do Estado.

Quanto a Sócrates, mais não lhe restará do que concordar com a consulta pública e acatar a vontade popular. Este primeiro-ministro é, afinal, o mesmo secretário-geral do PS cujo lema é justamente "o povo é quem mais ordena".
18-03-2009 in:

3 comentários:

Lúcia Duarte disse...

Gostei deste artigo!
Apenas há uns esclarecimentos que devem ser feitos: Ferreira Leite, inteligentemente, percebeu que o tgv era um erro politico, social e económico.
Sócrates, mesmo sendo o secretário-geral de um partido não conhece os ideias do mesmo, até porque os únicos que conhece são os que possam trazer-lhe beneficios pessoais e uns cargos a uns amigos que lhe possam dar jeito no presente e no futuro.
Mas, felizmente estamos perto de eleições e, felizmente também, esta gente decidiu que o tgv seria bom para a campanha. Assim, alguém ouvirá o que se tem andado a dizer há muito tempo: de facto, o TGV não é um luxo mas UM LIXO
Lúcia Duarte

Jorge disse...

Lúcia

O TGV é um lixo do qual o PS não quer prescindir.

É à conta dele, que se alimentam os lobbies da construção civil, que financiam as campanhas eleitorais.

Ler entrevista do ex Ministro das Finanças do PS, Luís campos e Cunha.

“Sou um grande crítico do TGV. Nunca compreendi porque é que se preferia gastar centenas de milhões de euros a construir novas linhas, novos cais e em adquirir ao estrangeiro (já que a Bombardier fechou a “nossa” Sorefame) quando já tínhamos o rápido e muito engenhoso “Pendolino” da Fiat, mais conhecido como o “Alfa Pendular” que alcança velocidades de cruzeiro de 140 Km/h, mas apenas nos escassos quilómetros que na via ferroviária Lisboa-Porto foram preparados para esse fim. Se toda a via existente fosse renovada, essa renovação conseguiria obter praticamente os mesmos resultados da construção de uma nova linha para alta velocidade, com uma fracção do custo. É claro que assim não se alimentariam os lobbies da construção civil que financiaram a última campanha eleitoral, claro…”
Fonte: Entrevista a Luís Campos e Cunha, de 15 de Dezembro de 2007 ao jornal “Expresso”

A luta ainda não acabou…

J. Alves

Lúcia Duarte disse...

Olá Jorge, desculpe a demora na resposta mas não me tinha apercebido que havia cá mais um comentário.
Dentro do PS há muito boa gente que não concorda com ele e há ainda gente que já mudou de opinião sobre a sua passagem por Alcobaça mudada a localização do aeroporto.
Muitos mais se têm apercebido que há que repensar o caso. O PSD foi o primeiro a perceber que foi um disparate mas no PS (tirando os teimosos e os oportunistas) também já há quem olhe de forma diferente.
Se posso servir de exemplo, sempre estive contra uma obra que só traz desgraça.
Não temos de parecer grandes quando temos tanta miséria neste país.
Quanto ao dinheiro para a campanha, só um cego não vê que os Grandes Interessados na obra prometeram algo em troca de....
Há que, por se pertencer a um determinado partido, não deixar de analisar as coisas de forma distante das paixões.

Claro que a luta não acabou e pode estar certo que, na minha modesta condição, lá estarei, se possivel na linha da frente....

Lúcia Duarte